Compromissos profissionais e uma certa apatia em relação aos lançamentos de 2008 tem me afastado das resenhas. Mas eis que finalmente surge um disco que dá vontade de resenhar.
O Coldplay lançou, no início da década, duas pérolas de nomes “Parachutes” (2000) e “A Rush of Blood to the Head” (2002), com combustível suficiente para lançá-los ao topo das paradas mundiais, sendo coroados em uma turnê que se tornou DVD ao posto de sucessores do U2 no equilíbrio entre a qualidade do rock e o sucesso pop. Isso tudo, somado a um primeiro disco que remetia muito à atmosfera do Radiohead (algo que foi imitado por 99% das bandas do chamado “new acoustic”, como o Keane), gerou uma expectativa estratosférica em torno do terceiro álbum da banda. Leia-se: esperávamos um “Ok Computer” do Coldplay.
Mas o Coldplay não era o Radiohead e por isso “X&Y”, de 2005, decepcionou. O álbum investia mais no lado pop da banda, empanturrado de baladas que se pareciam umas com as outras (”Fix You”, “What if”, “Swallowed by the sea”) e auto-plágios (a ótima, apesar disso, “Speed of Sound”), tudo parecendo que o Coldplay queria mesmo era tocar em rádio e novela. “X&Y” não era, propriamente, um álbum ruim, mas decepcionante, não correspondia às expectativas que o povo mais exigente nutria em torno da banda, que, apesar de sempre ter conteúdo pop, fazia isso muito bem, como ouvíamos no estupendo “Parachutes”. Temas como “High Speed” e “Everything’s not lost” provavam isso.
Passados três anos, eu, sinceramente, não esperava nada desse novo disco do Coldplay. Simplesmente não me despertava mais interesse. Esperava um punhado de boas baladas, muita badalação e shows grandiloqüentes.
Não é que os caras me surpreendem? Martin chamou Brian Eno para a produção e resolveu apostar. Não que o álbum seja substancialmente distinto daqueles que vieram antes. Ele simplesmente arrisca. Não joga o tempo inteiro na retranca, como “X&Y”. Tem ótimas baladas, como tinham “Parachutes” e “Rush of Blood” (ouçam a linda “Amsterdam”), mas tenta diversificar. Não parece que estamos ouvindo o álbum inteiro a mesma canção.
O Coldplay arrisca arranjos mais variados, quebrados, denso, um instrumental mais rico, pesado e sujo e canções menos grudentas e mais interessantes. “42″, por exemplo, traz uma bela virada com uma guitarra trovejante que nos faz lembrar a fase Bends do Radiohead, porém no lado pesado do álbum (leia-se, “My Iron Lung”, “The Bends”). “Chinese sleep chart” tem até reverb, uma guitarra pesada e velocidade, coisas completamente abandonadas pela banda no álbum anterior. Parece que Martin ouviu “In Rainbows” e resolveu tomar rumo. “Yes” e “Strawberry Swing”, música ABSOLUTAMENTE CHICLETE NA TUA MENTE, são outros pontos fortes do álbum.
Terminando com a grandiloqüência do U2, na bela “Death and all his friends”, o Coldplay mantém o seu projeto de ocupar o posto da banda de Bono Vox quando ela se retirar de cena. Mas, desta vez, faz com classe.
Nota: 8,7.